O cheiro que entra pela boca
Muita gente fez na infância um experimento sensorial sem saber que era isso: tapar o nariz para engolir o que não queria sentir. James Hoffmann explica por que o truque funciona. Apertar as narinas não desliga o gosto, mas desliga outra coisa, e o que some é justamente o que dá caráter ao que está na boca.
O que ele descreve em seguida é um gesto que você faz todo dia sem notar. Logo depois de engolir vem a respiração de deglutição, um sopro curto de ar que sai pelo nariz por conta própria. Faça o teste agora, sugere Hoffmann: engula, e repare no ar que sobe e sai. Esse sopro devolve ao nariz os mesmos compostos orgânicos voláteis que você tinha cheirado antes de beber. São moléculas que evaporam com facilidade na temperatura normal e ficam soltas no ar.
Duas entradas para o mesmo lugar
O destino é um só. The Craft and Science of Coffee registra que os compostos voláteis alcançam o epitélio olfativo, na parte alta do nariz, por dois caminhos diferentes. No primeiro, os compostos entram pelas narinas: é o que acontece quando você aproxima a xícara do rosto. No segundo, entram pelas aberturas internas que ficam dentro da boca, e esse caminho só abre na hora de provar.
Jessica Easto dá nome aos dois. A olfação ortonasal é o que a maioria chama simplesmente de cheiro, e serve para ler o ambiente: é por ela que você percebe que alguém está grelhando alguma coisa na vizinhança. A olfação retronasal começa dentro da boca, quando você mastiga ou engole e depois expira pelo nariz.
Os compostos entram pelas narinas, quando você aproxima a xícara do rosto. É o que a maioria chama simplesmente de cheiro.
Começa dentro da boca, quando você mastiga ou engole e depois expira pelo nariz. É tão integrada ao ato de comer que em geral não temos consciência dela.
E há uma assimetria entre as duas que costuma escapar. How to Taste Coffee registra que o cão tem o sistema olfativo desenhado para farejar o ambiente o tempo todo, e que a nossa estrutura física não é tão otimizada para esse tipo de cheiro. Nos humanos, a vantagem está no outro caminho, usado sem muita consciência.
O livro é direto sobre a consequência: a olfação retronasal é tão integrada ao ato de comer que em geral não temos consciência dela. Achamos que estamos provando, e parece estar acontecendo só na boca, não no nariz. O cérebro junta gosto, tato e cheiro numa percepção única, e o nome dessa percepção montada é sabor.
Você pode chamar os dois de aroma, mas não está percebendo o café pelo mesmo caminho.
O que um aparelho mede durante o gole
O argumento vira medida quando alguém põe um sensor na saída do ar. Coffee Production, Quality and Chemistry descreve um experimento assim: provadores respiram por um bocal ligado às narinas enquanto o ar exalado é analisado com resolução de meio segundo.
O roteiro é simples. Nas três primeiras expirações, com a boca vazia, o sinal é muito baixo. Então cada provador toma um gole de cerca de 10 mL e segura o café na boca por três ciclos de respiração antes de engolir. Em seguida vem a expiração logo depois de engolir, a tal respiração de deglutição, e ela costuma registrar intensidades relativamente altas. A explicação é bem física: o café molha a traqueia, e isso libera voláteis direto no fluxo do primeiro ar que sai. Depois disso a boca está vazia e o sinal continua ali, caindo devagar: é o retrogosto.
O achado que interessa está na comparação entre pessoas. Os perfis não coincidiram: houve provador cujo sinal disparou já no primeiro gole e provador cujo sinal mal apareceu ali. E a diferença não estava só na intensidade: estava também no equilíbrio entre os compostos de cada momento. Foi justamente esse segundo provador, o que mal reagiu ao primeiro gole, quem teve o aroma do café praticamente resumido à respiração de deglutição e ao retrogosto.
As explicações que a obra levanta para essa variação são triviais de tão corporais: a liberação dos voláteis dentro da boca, que varia com a flora bucal e a temperatura, o fluxo de ar e o padrão de respiração de cada um, e a abertura do véu palatino, a peça móvel que liga a boca à passagem do nariz. A conclusão vem escrita sem rodeio: um mesmo café não vai ter o mesmo sabor para pessoas diferentes. Uma das razões é física: a quantidade de voláteis que alcança os receptores varia de corpo para corpo.
E não é a única razão. A mesma obra situa esse efeito numa de quatro camadas: o café em si, com sua composição química e suas propriedades físicas; o que acontece na boca de cada um; o processamento no cérebro; e humor, memória e contexto social. As quatro contribuem juntas, e só a primeira está dentro da xícara. Craft Coffee vai na mesma direção por outro caminho: sabor não é objetivo, e depende também de genética e de experiência pessoal.
Jessica Easto e Andreas Willhoff propõem um exercício que aproveita exatamente isso: depois de engolir um gole, expire de propósito pelo nariz e compare com o que você sentiu ao inspirar sobre a xícara. Os autores dizem que a diferença deve ser bem distinta.
O exercício ajuda porque os dois momentos não são a mesma leitura do café. Um acontece quando os compostos entram pelas narinas; o outro, quando partem da boca e alcançam a cavidade nasal depois do gole. Você pode chamar os dois de aroma, mas não está percebendo o café pelo mesmo caminho. Na próxima xícara, então, uma pergunta que dá para responder sozinho: aquela palavra que você usou para descrever o café apareceu antes ou depois de engolir?
Depois de engolir um gole, expire de propósito pelo nariz e compare com o que você sentiu ao inspirar sobre a xícara. A diferença deve ser bem distinta.
How to Taste Coffee, Jessica Easto, 2023
How to Make the Best Coffee at Home, James Hoffmann, 2022
Coffee Production, Quality and Chemistry, Adriana Farah (ed.), 2019
Craft Coffee, Jessica Easto & Andreas Willhoff, 2017
The Craft and Science of Coffee, Britta Folmer (ed.), 2017