Variedade de café: o nome no pacote diz pouco sobre o sabor
Um pé de café pode ser mais alto que uma pessoa, ou bem mais baixo. A Caturra é do segundo tipo. Tristan Stephenson conta que ela foi encontrada perto da cidade de Caturra, no Brasil, nos anos 1930, mutação do Bourbon: planta compacta, mais produtiva e fácil de colher. A Pacas, achada em El Salvador em 1949, e a Villa Sarchi, na Costa Rica, crescem igualmente baixas.
Altura de planta não parece assunto de xícara, e não é. Mas é uma das razões práticas que põem uma variedade na lavoura, e quem colhe entende na hora: passa o dia inteiro com a mão na planta, e altura de arbusto é assunto de coluna vertebral.
Sabor entra na conta dessas três, e Hoffmann registra onde: a Pacas é desejável porque a xícara dela lembra a do Bourbon, e a Villa Sarchi é capaz de xícara excelente. Só não entrou primeiro.
Antes do sabor, três contas
Produtividade é a primeira conta. O Bourbon rende de 20 a 30% mais que o Typica, que é a variedade de onde quase todas as outras saíram. O Mundo Novo, cruzamento natural de Typica com Bourbon vermelho que o Instituto Agronômico de Campinas passou a cultivar nos anos 1940, rende cerca de 30% mais que o próprio Bourbon, e há estimativas de que chegue a 40% dos pés de café no Brasil.
A segunda conta é uma restrição: nem todo produtor escolhe num catálogo aberto. James Hoffmann observa que muitos têm acesso limitado a estoque de semente e escolhem dentro do que existe por perto.
A terceira é o lugar. A mesma Caturra baixinha, plantada em altitude baixa, tende a render café de corpo leve, e o peso do próprio fruto pode matar a planta. Acima de 1.200 metros ela produz um café melhor e uma safra mais sensata. A variedade não garante um sabor fixo; ela responde ao lugar, ao manejo e ao processamento.
A variedade não garante um sabor fixo; ela responde ao lugar, ao manejo e ao processamento.
Quando a doença pesa na escolha
No começo dos anos 1980 a lavoura teve um problema urgente. The Craft and Science of Coffee registra que a necessidade de variedades de arábica resistentes à ferrugem, doença causada pelo fungo Hemileia vastatrix, levou os melhoristas a procurar genes de resistência fora do arábica tradicional. A fonte principal foi o híbrido de Timor, um cruzamento natural entre Coffea arabica e Coffea canephora, altamente compatível com o arábica. Dele saíram variedades como os Catimores e os Sarchimores, que juntam produtividade alta e resistência à ferrugem.
Aqui aparece o preço da troca. A mesma obra registra que, mesmo com desempenho agronômico melhor, a qualidade de xícara dessas variedades segue sendo, em alguns casos, assunto controverso: cita a Costa Rica 95, avaliada abaixo das variedades tradicionais nos estudos publicados.
E o contrapeso vem em seguida: quando a qualidade de xícara entra como critério maior da seleção, dá para obter variedade resistente com xícara excelente: a Castillo, na Colômbia, é um dos exemplos citados. O custo não estava na resistência em si, e sim em deixar a xícara para o fim da seleção.
Os Catimores e os Sarchimores juntam produtividade alta e resistência à ferrugem, mas a qualidade de xícara segue sendo, em alguns casos, assunto controverso.
Quando a qualidade de xícara entra como critério maior da seleção, dá para obter variedade resistente com xícara excelente, como a Castillo, na Colômbia.
O que o nome no rótulo promete
Pouco, e o mais honesto é dizer isso. Hoffmann considera muito difícil beber uma xícara e saber se o café é Bourbon ou Caturra. Existem variedades com característica de sabor que aparece independentemente do terroir, mas são relativamente raras, e o nome impresso no rótulo costuma valer mais como demonstração de rastreabilidade do que como guia de prazer. E raramente vem contextualizado: o torrefador imprime o nome e não explica.
Jessica Easto põe o limite pelo outro lado. Se o potencial de qualidade não está escrito na genética, nenhuma etapa seguinte o inventa; mas qualquer etapa seguinte pode destruí-lo; e cada uma delas pode, também, trabalhar para destravar as melhores qualidades que já estão ali. Ou seja, a genética é o teto, não o piso: o resto se ganha ou se perde depois, na secagem, na torra e na xícara.
Existem exceções, e elas cobram a conta em outro lugar. The Craft and Science of Coffee lista Laurina, Moka e Blue Mountain como seleções que o mercado endossou pela qualidade, e põe Geisha e Rume Sudan entre as seleções silvestres e semissilvestres, de baixa produtividade, que servem a mercados de nicho.
A Geisha é o caso em que a conta virou. Em 2004 uma fazenda do Panamá inscreveu um lote numa competição, e o café pareceu tão fora do padrão que arrematou 21 dólares por libra em leilão. O recorde caiu em 2006 e de novo em 2007, quando bateu em 130 dólares por libra, perto de cem vezes o preço de um café de commodity. Depois disso, muito produtor da América Central e do Sul plantou Geisha.
Sabor virou argumento agronômico no dia em que virou preço. Fora desse caso, o nome no rótulo costuma indicar, antes de tudo, a resposta que alguém deu a um problema de lavoura: a altura de um arbusto, o tamanho de uma safra, um fungo. Segue útil na prateleira, como rastro de procedência. Só não como promessa de xícara.
The Craft and Science of Coffee, Britta Folmer (ed.), 2017
The World Atlas of Coffee: From beans to brewing - coffees explored, explained and enjoyed, James Hoffmann, 2019
How to Taste Coffee, Jessica Easto, 2023
Craft Coffee, Jessica Easto & Andreas Willhoff, 2017
The Curious Barista's Guide to Coffee, Tristan Stephenson, 2015
How to Make the Best Coffee at Home, James Hoffmann, 2022