Água: quando a boa não faz café bom
Existe uma frase que aparece em quase toda conversa sobre água e café: a água é mais de 98% da bebida, então é melhor que ela tenha bom gosto. Jonathan Gagné, pesquisador em astrofísica, ouve esse argumento com frequência, e acha que ele erra o alvo. Não por ser falso. Por ser a parte menos interessante do assunto. Gagné escreveu um livro sobre a física do café coado. O que ele considera mais interessante é o avesso. Ele faz questão de não ser mal entendido. Água com cheiro ou sabor estranho obviamente atrapalha, e ninguém precisa de um livro para saber. O ponto é outro. É a água que você beberia sem reclamar e que ainda assim decide o resultado.
Uma água de gosto perfeitamente bom pode entregar um café ruim, ou apenas sem graça.
O que decide não é o gosto dela. É o que vem dissolvido. A Specialty Coffee Association organiza a discussão em torno de dois parâmetros. Não são sinônimos, embora andem juntos: a dureza total mede o mineral presente; a alcalinidade mede a capacidade daquela água de neutralizar ácido. Os dois agem em momentos diferentes. A dureza age na extração, e a SCA a trata como parâmetro central para uma extração adequada. Vale reparar em como a própria associação escreve: uma dureza mais alta presumivelmente aumenta a eficiência da extração. Guarde esse advérbio: ele volta no fim.
A alcalinidade age depois, e é onde a conversa encosta no paladar. O bicarbonato dissolvido neutraliza os ácidos orgânicos que o café acabou de entregar, justamente os que a boca lê como brilho e vivacidade. Quanto mais alta a alcalinidade, menor a acidez percebida. Neutralizados em excesso, esses ácidos deixam a bebida chapada: com corpo, mas sem relevo, sem o contorno que a acidez daria. Seria cômodo concluir que menos alcalinidade é sempre melhor, e não é. Alcalinidade muito baixa também cobra seu preço: deixa a acidez exposta e sem equilíbrio, e favorece a corrosão de peças metálicas do equipamento. A referência clássica gira em torno de 40 ppm de carbonato de cálcio, com valores um pouco menores nos métodos coados, onde se busca preservar mais acidez.
Vale abrir o que são esses minerais, porque é aí que a explicação costuma parar. A dureza é dominada por cátions bivalentes: íons de carga positiva dupla, sobretudo o cálcio e o magnésio. A hipótese mais influente sobre como eles agem é eletrostática. Os compostos do café têm regiões ricas em elétrons, e os cátions se acoplam justamente nesses pontos, ajudando a arrancá-los do pó. Como cada cátion se liga com força diferente às mesmas moléculas, a literatura costuma associar o cálcio a corpo e doçura, e o magnésio a notas florais e à acidez. É dessa leitura que nasce o conselho que circula pronto: use água com magnésio para extrair mais.
Acontece que essa explicação está em disputa. Um estudo experimental de 2021, na Universidade de Umeå, testou a hipótese com um desenho engenhoso. Nas concentrações recomendadas para café, não houve aumento estatisticamente significativo na extração dos ácidos. Em concentrações altas, os ácidos málico e cítrico caíram. É o oposto de extrair mais. E caíram também quando o mineral entrou na bebida já pronta, com a extração encerrada. A leitura da autora é que os cátions agem sobretudo sobre a percepção do sabor, não sobre a extração.
O estudo adicionou magnésio e cálcio à água antes e depois da infusão. Se os cátions ajudam a extrair, adicionar antes deveria mudar o resultado; adicionar depois, não deveria mudar nada. Comparar os dois momentos separa o que é extração do que é outra coisa.
Os cátions se ligam aos sítios carregados dos ácidos e aromáticos, e ajudam a arrancá-los do pó. É modelagem química, e os próprios autores pediram verificação experimental.
Nas concentrações usadas em café, os cátions não aumentaram a extração dos ácidos. Agem sobretudo sobre a percepção do sabor.
Volte agora àquele presumivelmente da SCA. Ele não sobra na frase. Não existe a água ideal, nem uma composição única que sirva a todo café. E a própria razão pela qual a água muda a xícara ainda está sendo disputada. O que ninguém disputa é que ela muda. O rótulo fecha esse circuito sem que ninguém perceba. O leitor compra café guiado por descritores impressos na embalagem: acidez cítrica, fruta vermelha, doçura de caramelo. Só que o descritor é uma promessa feita com uma certa água, a de quem torrou e provou. Reproduzir a promessa na sua cozinha passa por entender a água que você usa. Se o café que prometia laranja chega redondo e sem contorno, talvez o problema não esteja no grão, no moedor nem na sua mão. Sobrou uma variável que você nunca mexeu. E ela é a maior parte da xícara.
Faça o mesmo café, do mesmo jeito, com uma água diferente da que você usa sempre. Prove os dois lado a lado, no mesmo momento. É o único jeito de saber se a sua água está no caminho. Na pior das hipóteses, você descobre que ela já estava boa.
The Physics of Filter Coffee, Jonathan Gagné, 2020
The SCA Water Quality Handbook, Specialty Coffee Association, 2018
The Role of Dissolved Cations in Coffee Extraction, Christopher H. Hendon, Lesley Colonna-Dashwood e Maxwell Colonna-Dashwood, Journal of Agricultural and Food Chemistry 62, 2014
Bachelor thesis in Life Science/Chemistry, Bratthäll, Umeå University, 2021